Nosso tema de março, em homenagem ao mês das mulheres, é a história de alemãs e brasileiras do século XIX até o pós-guerra. Na primeira parte (player acima), vamos até o entreguerras, que na Alemanha foi caracterizado pela República de Weimar. Na segunda parte (player abaixo), falamos das mulheres durante o Nazismo até o pós-guerra e, seguindo nossa tradição de misturar história e jornalismo, trouxemos o depoimento de mulheres brasileiras que moram na Alemanha (e produzem conteúdo sobre isso para a internet) sobre a perspectiva delas sobre ser mulher hoje nesse país.



Esse episódio foi baseado nos livros Women in German History, da historiadora alemã Ute Frevert, e Nova História das Mulheres no Brasil, organizado pelas historiadoras brasileiras Carla Pinsky e Joana Maria Pedro.


Ser mulher no século XIX

É difícil entender o século XX sem antes falar do século XIX. No episódio passado já discuti bastante a importância desse período e como vivemos as consequências dele hoje. Com a história das mulheres não é diferente. Há uma diferença importante entre mulheres da zona rural e da cidade, de classes baixas e médias/altas, assim como um recorte racial. Surpreendentemente, mais coisas aproximam brasileiras e alemãs do que afastam. De qualquer forma, tudo isso permeia diferentes experiências do que é ser mulher, e falamos dessas diferenças ao longo do episódio.

É no séc XIX que começa a chamada “questão da mulher”, que busca cada vez mais uma formação profissional na metade dos 1800 na Alemanha. Alguns dizem que é porque os homens queriam se casar mais tarde, mas não era isso. Na sociedade burguesa as mulheres se casavam mais tarde, e precisavam de um trabalho enquanto isso. E mesmo casadas continuavam trabalhando escondidas de casa e vendendo para lojas, porque era “feio” socialmente a mulher precisar trabalhar – era como se o homem não estivesse cumprindo seu papel de provedor.

Outro motivo pelo qual as mulheres puderam trabalhar mais foi pelo fato de que no século XIX muitos produtos já podiam ser comprados prontos (como roupas e produtos para a casa), liberando tempo.

Durante a parte 1 do episódio, eu explico um pouco mais sobre a educação das mulheres durante o XIX, ou melhor, a conquista do direito à educação, e os entraves para isso – o que consequentemente restringia o acesso ao trabalho qualificado. Também explico as forças contrárias à educação de mulheres, que argumentavam sobre o quanto isso ia contra a “natureza feminina”. A educação na virada do século não tinha, no entanto, um objetivo de emancipação, e sim como forma de tornar as mulheres melhores mães, capazes de educar melhor os filhos.   

Pelo aspecto legal, na Alemanha o código civil vigente no século XIX, mesmo depois da unificação, era o prussiano até a virada do século. Tanto por esse código quanto pelo novo, nacional, o homem era o único a ter direito de tomar decisões na família: a última palavra era dele em relação à educação, assim como a guarda legal dos filhos. E se a esposa tivesse alguma posse ou valor em dinheiro, antes ou depois do casamento, somente ele podia gerenciar esse patrimônio. 

No Brasil, o código civil que valeu por mais de 300 anos (de 1603 a 1916) era o português, chamado “código filipino”. Por esse código, as mulheres eram consideradas perpetuamente menores de idade, no sentido de que o pai era responsável por todas as decisões e questões jurídicas até que ela se casasse, e então o marido passava a ser o responsável. 

Falamos ainda no episódio sobre as diferenças entre o casamento alemão e o brasileiro à época, e como isso mudava a vida das mulheres. O higienismo e a ciência influenciaram na relação entre homem e mulher, estimulando o sexo para além da procriação para evitar a disseminação de doenças e estimular a perpetuação da família – especialmente importante na Alemanha, onde o governo busca há mais de século aumentar a taxa de natalidade para garantir a perpetuação da população alemã. 

O higienismo afetou a vida das mulheres em mais aspectos, como na questão do aleitamento cruzado, feito pelas chamadas “amas de leite”, um costume europeu que se perpetuou no Brasil até o fim do século XX. Discutimos como a mudança nos conceitos de higiene e a ideia de modernidade mudaram também o que se esperava da mulher como mãe.

Debatemos ainda o perfil do trabalho feminino na virada do século, das verdureiras imigrantes no Brasil até as operárias alemãs. Ouça o podcast para entender as diferentes atuações profissionais das mulheres e como isso era encarado pela sociedade.


A mulher e o apoio à Primeira Guerra Mundial

O início da Primeira Guerra foi encarado com bastante entusiasmo na Alemanha e em outras nações europeias. Isso soa estranho para nossa cabeça do século XXI, traumatizada pelas grandes guerras e a Guerra Fria. Pensa em combates com medo, buscando evitá-los ao máximo. Mas a guerra tinha outro sentido para quem vivia pouco mais de 100 anos atrás, e começava o século XX.

Explicamos no episódio como foi o apoio das mulheres alemãs à guerra, e como elas se viraram para garantir alimento em casa em tempos de carestia. O perfil do trabalho feminino também mudou no período, especialmente na indústria em postos de trabalho antes ocupados por homens. Quando a guerra já desenhava uma derrota alemã em 1917, foram criadas até mesmo agências governamentais para resolver problemas que impediam mulheres de trabalhar na indústria, para liberar o máximo possível de homens para o front.


A República de Weimar e a mulher moderna

No processo de construção da república, depois da derrota alemã na guerra, as mulheres conquistaram o direito de votar e a participação política delas foi significativa, inflamada pela Revolução de 1918. Discutimos um pouco no podcast sobre como foi essa entrada das mulheres na política, inclusive como representantes: o que elas defenderam como mudança? Dica: tinha a ver com o fortalecimento da família.

Nesse momento mudou novamente o perfil do trabalho, porque as mulheres passaram a trabalhar muito em escritórios e no comércio, e também pelo fato de que muitas assumiram postos em período integral. 

Essa mulher que trabalhava fora, se vestia casualmente, fumava, representava a mudança da mulher, uma mulher moderna. Mas isso não era nenhuma mudança de fato, porque elas continuavam escanteadas na sociedade, dependente dos seus pais ou maridos, ganhando muito menos que os homens, e sem ocupar posições de poder e decisão. Tanto que o filósofo alemão Adorno falava que as mulheres de escritório das da República de Weimar eram tão independentes quanto homens dependentes.

De qualquer forma, o prestígio desse tipo de trabalho era grande, e a maioria preferia isso ao trabalho doméstico em casas de famílias burguesas, por exemplo, que oferecia menos liberdade, ou vagas na indústria, com salários mais baixos mas menor status e piores condições de trabalho.

Falamos no episódio de como, no Brasil, aconteceu um movimento semelhante de mulheres passando a trabalhar no comércio e em escritórios, além da educação, com destaque para a magistratura. E de como o perfil do trabalho doméstico remunerado foi e é diferente no Brasil por causa da escravidão e suas continuidades na sociedade brasileira.

A República de Weimar também foi palco de diversos debates sobre sexualidade. Foi não apenas um momento de maior liberdade sexual, mas de discussões científicas a respeito, buscando aumentar as famílias e ao tornar os casamentos mais felizes por meio do sexo. 

E assim chegou ao fim a República de Weimar, com a subida de Hitler ao poder. Foi um período cheio de contradições, com conquistas importantes e o desafio de responder como a mulher moderna seria capaz de cumprir seu dever social de mãe e esposa e ao mesmo tempo ter uma carreira.

Mulheres no nazismo

Quando falamos de mulheres durante o nazismo, assim como em qualquer período, temos que pensar: quais mulheres? Porque como falamos no último episódio, as mulheres também são a religião que elas praticam, a criação que elas tiveram, sua nacionalidade, sua classe social, sua posição política, entre outros fatores… Enfim, mas no nazismo faz um sentido especial falar disso, porque mulheres diferentes receberam tratamentos diferentes e também agiram de formas diversas.

Uma mulher judia, comunista ou lésbica, por exemplo, era perseguida, morta e muitas vezes tinha seus filhos sequestrados pelo governo – relembramos inclusive do episódio da destruição e queima de livros do Instituto de Sexologia, que estimulava a diversidade sexual. Uma mulher ariana e nazista, por sua vez, tinha um outro lugar na sociedade do Hitler, e falamos principalmente delas na segunda parte do episódio.

Uma frase do Joseph Goebbels, ministro de propaganda nazista, de 1933, resume muito bem o lugar reservado pelo nazismo às mulheres no seu plano de expandir a raça ariana: “O primeiro e mais adequado lugar de uma mulher é na família, e o dever mais glorioso que ela pode cumprir é presentear seu povo e sua pátria com uma criança.” 

Goebbels é bastante claro sobre o lugar social da mulher no regime, que é como mãe de novos arianos. Apresentamos inclusive as várias medidas do regime nazista para tentar manter a mulher em casa ou ao menos longe de posições de destaque (todas as organizações de mulheres que não foram proibidas foram centralizadas na NS Frauenschaft). 

E por que Goebbels fala de  “presentear o povo e a pátria”? Porque o nazismo se apoiava na ideia da volksgemeinschaft, que já falamos no episódio de fevereiro, e que pensava nos arianos como uma grande comunidade que os unia. Então o filho não era como na família burguesa, essa coisa de “o filho é meu e eu faço o que eu quiser”. Era um filho da sociedade, e o dever da mãe era criá-lo para essa sociedade. 

Quem era a mulher ariana nazista

Era uma honra para a ariana nazista fazer parte da “comunidade nacional” e ter um papel nela. Elas sentiam que tinham uma missão e que aquilo contribuíam para o destino grandioso da nação envisionado pelo regime. Falamos na segunda parte do episódio de como eram os cursos para ser uma boa mãe e dona de casa, e qual era o perfil dessa mulher

Dentro desse grupo maior, também havia subdivisões que se envolveram ainda mais com a ideologia nazista. Explicamos um pouco sobre o papel da juventude hitlerista e as mulheres que trabalhavam para a SS.

Mulheres e moças na resistência ao nazismo

O partido era bastante eficiente em esmagar qualquer oposição, e por isso a resistência ao regime não foi suficiente para acabar com ele. Essa resistência em geral era organizada em grupos, inclusive de jovens, como a Swingjugend, no norte da Alemanha, que se opunha mais pelo aspecto cultural, e o grupo proletário Edelweiss Pirates, no oeste do país. Apesar de grupos oficiais da Igreja terem sido dissolvidos em 1937, também havia grupos autônomos que se colocavam contra as heresias do cristianismo germânico nazista.

Apesar da resistência não ter conseguido fazer a frente necessária pra derrotar o nazismo, ela salvou diversas vidas. E o papel das mulheres nisso foi importante. Como a maior parte dos líderes de resistência estavam presos ou foragidos, as mulheres mantinham a rede ativa e criavam novos grupos. Distribuíam panfletos escondidas, ajudavam famílias daqueles que foram presos ou assassinados, e escondiam foragidos em suas casas. Discutimos no episódio, ainda, por que não houve mais gente contra o nazismo, e por que o regime teve um apoio tão massivo de mulheres.

O fim da Segunda Guerra e o fardo sobre as mulheres

Terminamos a parte histórica do episódio de março discutindo um pouco sobre o enorme impacto que o fim da guerra teve sobre as mulheres. O processo de desnazificação começou imediatamente nos territórios ocupados pela França, Inglaterra e Estados Unidos. 

Muitas coisas pioraram para a população alemã: houve falta de comida, de combustível e de moradia (não só residências foram destruídas, mas os alemães dos territórios ocupados tiveram que voltar, então em 1946 havia 14 milhões de famílias para 8 milhões de moradias, e muitos tinham que abrigar refugiados).

Nesse cenário, as mulheres carregaram um fardo, porque era esperado que elas alimentassem a família, mas recebiam provisões menores por serem mulheres e 4 milhões de homens haviam morrido e, em 1946, 11,7 milhões estavam presos. As últimas tropas demoraram 10 anos para voltar. Então muito se recaiu sobre essas mulheres. Explicamos como foi essa situação de sobrevivência, e as estratégias das mulheres nesse contexto para sustentar as famílias – como ajudar no recolhimento dos escombros das cidades (e por isso ficaram conhecidas como Trümmerfrauen, mulheres dos escombros).

Outro efeito do pós-guerra debatido no episódio foi a dificuldade de readaptação dos homens, de volta do front, à vida civil. O número de divórcios explodiu, pois as mulheres, sozinhas e independentes por anos durante o conflito, em geral se recusavam a se submeter às ordens dos maridos, e muitos filhos viam os pais como intrusos autoritários no lar.

Como é ser mulher hoje na Alemanha

Do pós-guerra pulamos para o tempo presente, com o depoimento de cinco brasileiras maravilhosas que moram na Alemanha, produzem conteúdo sobre a vida no país e aceitaram meu convite pra falar um pouco sobre ser mulher por lá. Isso faz parte dessa pegada do Somos pq Fomos de fazer pontes entre o passado e o presente, Brasil e Alemanha, assim a gente consegue entender o que está presente hoje e que vem desses movimentos do passado, e o que realmente mudou. Ouça os depoimentos na segunda parte do episódio ou por aqui, separadamente:

>>> Cássia Freire, da Berlim VIP, 

>>> Elissa Giordano, do Canal Alemanizando

>>> Izabel Alencar, do Projeto Fui

>>> Gilliany Almeida, do Gyssa na Alemanha

>>> Lucé Rodrigues, do Germany for You


Bibliografia

  • Livro: Women in German History – From Bourgeois Emancipation to Sexual Liberation, de Ute Frevert
  • Livro: Nova História das Mulheres no Brasil, organizado por Carla Pinsky e Joana Maria Pedro
  • Livro: Sex and the Weimar Republic – German Homosexual Emancipation and the Rise of the Nazis, de Laurie Marhoefer.
  • Site: Die NS-Frauenpolitik (Lebendiges Museum Online) 
  • Site: Mütterschulen (Lebendiges Museum Online) 
  • Site: Dismantling the German myth of ‘Trümmerfrauen’ (DW)

Já assistiu ao episódio #0? Nele eu explico a ideia e estrutura do Somos pq Fomos, e falo um pouco sobre o que aconteceu na minha vida para resolver criá-lo (tem só 12 minutos!). 

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