No mês de abril o assunto do Somos pq Fomos é cinema! Fizemos uma seleção de filmes contemporâneos que estimulam reflexões sobre a história da Alemanha. A ideia aqui não é assistir aos longas para saber como foi a história, até porque os filmes sempre vão priorizar elementos dramáticos, subjetivos e ficcionais e são incapazes de reconstruir o passado como ele foi. 

Nossa proposta é então usar esses filmes para pensar nas marcas que os acontecimentos do passado deixaram na sociedade alemã e para pensar na influência que isso tem com o presente. Os filmes escolhidos ainda trazem a provocação: em que medida o passado não pode se repetir de outra forma se não formos atentos?

Na primeira parte do episódio de abril falamos um pouco sobre a história do cinema alemão e, em seguida, focamos em debater 4 filmes: Berlin Alexanderplatz (2020), Em Trânsito, Phoenix e Toni Erdmann. Quem nos guia na análise dos filmes é Sérgio Rizzo, jornalista, professor, crítico e curador de cinema, mestre e doutor em audiovisual pela ECA-USP.


1. Berlin Alexanderplatz (2020), dir. Burhan Qurbani

Baseado no clássico homônimo da literatura alemã, o filme é uma releitura da história que originalmente se passa na República de Weimar. A versão de 2020 conta a história de Francis, um imigrante africano morando ilegalmente em Berlin que busca ser uma pessoa boa e ter uma vida melhor. Mas uma série de acontecimentos são obstáculos para alcançar esse objetivo e colocam em questão: é possível a tão sonhada integração de imigrantes que carregam certas marcas à rica Alemanha?


2. Em Trânsito (2018), dir. Christian Petzold

Este filme provoca o espectador ao brincar com marcadores de tempo: ao misturar elementos atuais com outros da década de 1940 de uma forma sutil, o longa sugere que a perseguição feita pelo nazismo poderia acontecer novamente. O cenário é Marselha atual, e conhecemos a história de pessoas que estão tentando fugir, e como essa situação de incerteza despedaça a saúde mental e os relacionamentos daqueles que vivem a tensão. Petzold nos lembra, ainda, que nada é fixo e imutável: nossas vidas estão permanentemente em trânsito.


3. Phoenix (2014), dir. Christian Petzold

O filme trabalha com duas imagens importantes: a da transformação de identidade via cirurgia plástica, por um lado, e o lugar incômodo da vítima sobrevivente. A protagonista Nelly sobrevive às atrocidades de um campo de concentração e seu rosto precisa ser reconstituído. Tudo o que ela quer na reconstrução da sua vida é que tudo seja como antes: seu rosto, seu casamento, suas amizades, sua carreira de cantora, sua vida… Mas nada mais é o mesmo depois da guerra, e Nelly descobre isso de forma dolorosa.


4. Toni Erdmann (2016), dir. Maren Ade

Classificado em uma pesquisa da BBC com 368 especialistas em cinema como 8º filme mais importante de toda a história dirigido por uma mulher (em uma lista de 100), Toni Erdmann tem o poder de nos constranger do início ao fim com as atitudes do pai (que dá nome ao filmes) de Inês, uma executiva de uma multinacional alemã trabalhando na Romênia. Ele é um professor de escola despretensioso e brincalhão, e ela é uma mulher endurecida pela carreira corporativa que se desdobra para ser uma mulher em um ambiente masculino e machista. Focado na relação problemática entre os dois, o filme abre uma janela para observar de que forma a Alemanha pós-queda do Muro de Berlim se posiciona no cenário político-econômico europeu, e como o capitalismo predatório e sua lógica de produtividade destrói as relações interpessoais e passa por cima de culturas.


Na segunda parte do episódio de março, que vai ao ar no final do mês, traremos mais 4 filmes para a discussão, desta vez com a visão americana sobre a história da Alemanha. Não perca!


Já assistiu ao episódio #0? Nele eu explico a ideia e estrutura do Somos pq Fomos, e falo um pouco sobre o que aconteceu na minha vida para resolver criá-lo (tem só 12 minutos!). 

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